Pontos Bobos?
Gilson de Paula

Paraíba
Pedro Henrique

Torcedor Doente x Ocasião
Lincoln Henrique

Eternos Coxas
Odacir Pereira Jr

Orgulho de ser Coxa
Marcela Neves

Paraíba
soucoxa!

No primeiro semestre deste ano tive uma das maiores alegrias de minha vida. Daquelas que tocam o coração, que nos fazem lembrar que somos mais do que seres simplesmente racionais, e que constituem a verdadeira beleza e o único significado da vida. Para compartilhá-la, peço ao leitor que me conceda a licença para brevemente relatar os fatos que a antecederam
Os primeiros seis meses de 2008 foram maravilhosos para mim. Formei-me em Direito pela Universidade Federal do Paraná, na colação de grau fiz o discurso para os pais, meu baile de formatura foi maravilhoso e passei “de primeira” na OAB. Para fechar com chave de ouro, três dias após o resultado da Ordem, fui pela primeira vez à Europa.
No velho continente, iria passar por vários países, como Portugal, Hungria e Itália. Em meio a uma plêiade de grandes opções, perguntava-me onde minha viagem atingiria o auge. Na Torre Eiffel ou no Nou Camp? No Coliseu ou no muro de Berlim? Mal sabia eu que, ao responder-me, o destino daria uma lição a não ser jamais esquecida. Essa, explicarei no final. Prossigamos.
Nesses meses fora, passei por alguns momentos complicados, que agora não vêm ao caso. Cada um deles trazia consigo as saudades do Brasil. Nada mais natural. Exceto, é claro, por alguns detalhes, como a ordem das coisas que me ocorriam.
Tenho os pais que pedi a Deus, duas irmãs que amo muito, um afilhado maravilhoso e grandes amigos. Contudo, por mais desagradável que seja dizê-lo, nem todos me vinham à cabeça. Não que não os estime. Muito pelo contrário. Mas é que sofreram uma concorrência tão poderosa e intensa que surpreendeu até a mim: a lembrança do Coritiba. Acima de todas as outras coisas, e equivalente apenas ao que sentia em relação aos meus pais.
Já sabia que o glorioso ser-me-ia lembrado. Ora, vou a todos os jogos desde 1990. Sou sócio e vivo em função do maior clube do Paraná. Mas mesmo assim confesso que fiquei chocado. Até porque (felizmente) nunca havia tido muito tempo para poder sentir falta do glorioso. Aqui, refiro-me a “falta” no sentido mais profundo do termo, ausente no vernáculo e presente no sofrimento de quem sofre por um amor ausente. É algo muito diferente daquela ansiedade generalizada que sempre me incomodou nos dias que separavam dois jogos consecutivos; ou que me acordava mais cedo em dia de espetáculo no Couto. A essa eu já me acostumara.
Mas voltemos à viagem em si.
Como esperado, os dias passavam e sempre havia razões para que eu me encantasse com as maravilhas que via. Um dia era o rio Danúbio, que divide Budapeste ao meio. No outro, a Fontana Di Trevi, em Roma.
Passavam os dias e eu sempre acompanhava os jogos do Coritiba pela internet. Primeira fase do Paranaense, Copa do Brasil, segunda fase do estadual, semifinal contra o Paraná Clube. Até que chegou o dia final do campeonato paranaense. Era 27 de Abril e acabara de chegar a Paris, a cidade que me levou à Europa. Havia um sol lindo no céu, as pessoas saíam às ruas e eu poderia me perder em meio a tanta beleza. Vesti a camisa do Coritiba e passeei pelas margens do Sena, na inútil ilusão de que as horas passariam mais rápido e eu esqueceria momentaneamente da decisão. Não deu. O rio, que tanto orgulhou Napoleão, curvava-se impotente diante de mim, sem importância para alguém que desejava estar vendo o Alto da Glória.
Voltei para o local em que estava hospedado, esperando as horas correrem. Lá, todos só falavam das belezas da cidade favorita de Victor Hugo. E eu, olhando no relógio de meia em meia hora, causava curiosidade aos amigos estrangeiros que fiz. Os turistas só pensavam na arte de Paris. Eu, na de Paraíba. Não tenho poderes especiais, mas sei que o que pensavam de mim naquele momento não era algo muito diferente de: “o que leva este neurótico a não conseguir relaxar nem morando em Paris?” Infelizmente descobri que não. Ao menos em dia de jogo do Coritiba.
Depois de tanto sofrimento, o tempo resolveu ter compaixão de mim. Chega a hora do jogo. Como a primeira coisa que havia procurado na Cidade Luz era uma Lan House onde pudesse ouvir jogos do coxa, para lá me dirigi.
Chegando, pergunto pelo preço e obtenho a resposta: 9 euros a hora. Durante toda a viagem (o que inclui antes e depois daquele dia), acompanhava os jogos do Coritiba, e estava acostumado a pagar muito menos. O atendente não foi deselegante, mas, face ao preço cobrado, olhei-o no olho e pensei o mesmo que penso toda vez que recebo um péssimo tratamento (ainda que este não fosse o caso): “Este filho da p... é atleticano. Tenho certeza!”. Obviamente o pobre funcionário não nascera com tal defeito genético. Mas que pensei... ah, pensei...
Como não tinha opção, pago, retiro a senha e vou a um computador. Tudo estava correndo bem, não houvesse, como diria Drummond, uma última pedra no caminho.
Reparei que havia apenas duas máquinas livres, de números 24 e 33. Corri até aquela que simbolizaria o número de títulos que o Coritiba iria alcançar. Todavia, uma americana horrorosa e desagradável, fez questão de chegar antes. Pedi-lhe que me cedesse a máquina. Olhou-me com desdém e, sem dizer nada, sentou-se. Novamente meu inconsciente afirmou tratar-se de uma torcedora do time lá de baixo: “Atleticana do c*¨*****”
Comecei a reclamar em voz alta. Chamei o atendente, gritei e fiz questão de não ser discreto. Ele falou-lhe algumas palavras que percebi não terem sido compreendidas. Mas a estadunidense se resignou e foi ao computador 24. Pronto, estava em meu Couto Pereira. Comecei a procurar uma rádio e achei a Transamérica. Faltavam 5 minutos para começar o jogo. Tentava controlar a emoção, mas a Império não contribuía. Quando ela foi “ao inferno”, eu fui às lágrimas. Entrei em contato com uma emoção que nunca senti na minha vida. Era pavorosa a distância. Era deliciosa a melodia. O estádio inteiro cantando e eu, pela primeira vez em mais de 17 anos de Couto Pereira, não apoiaria o meu clube em uma final de campeonato. Sentia-me inferior à mais desprezível das merdas.
O jogo corre. E eu cada vez mais nervoso. O fone de ouvido no máximo. As pessoas já se acostumavam com o que elas provavelmente classificaram como o “latino maluco que canta sozinho, chora e ri ao mesmo tempo, e batuca na mesa como se ela fosse um tambor”.
O Coritiba jogava bem, a bola corria majestosa pelos pés de nossos atletas. Mas nada de gol. Então, aos 28 minutos, ela cai nos pés de Valência. Deus havia reservado uma surpresa para mim.
A partir dali, começava a responder à pergunta que fiz no começo deste texto. O local mais importante para mim seria o computador de número 33 daquela lan house. O motivo? Agora passo a narrar, sem necessidade de qualquer consulta, visto que nunca mais esqueci: “recuperação do verdão, dominou Paraíba, pra Ricardinho, tentou fazer a jogada, driblou, pra Paraíííííííííbaaaaaaa”.
Meu coração disparou. Arrepiei-me. Não podia extravasar como estava acostumado a fazer. Não havia quem abraçar. Fiz uso de todas as minhas forças para segurar o grito contido. Contrariado, ele rasgou-me o peito, aí se encravando até hoje.
Minhas mãos tremiam, eu suava como nunca. Meus cabelos já não tinham mais forma definida, minha cor denunciava uma quase inexistência de melanina.
Os segundos que, na narração, separaram o mágico nome de Paraíba e a próxima palavra (gol), abriram-se como muralhas, e foram preenchidos maviosamente pelo delicioso regozijo da torcida do Coritiba.
Foi a coisa mais linda que já ouvi em toda a minha vida. Mais do que qualquer declaração de amor que recebi. Mais do que a pronúncia de meu nome na lista do vestibular da Federal. Mais do que qualquer música.
Era o grito de meus irmãos coritibanos, que naquele momento me abraçavam, trazendo para perto de mim a coisa que mais amo no mundo. Eu era capaz de enxergar o rosto dos torcedores pulando, abraçando-se, dando socos ao ar e comemorando. Eternamente serei grato a todos que foram àquele jogo. De suas vozes meu sentimento retirou a mais linda canção que já ouviu. E que fez eterno, em meu peito, aquele momento mágico e indescritível que jamais se repetirá. Mesmo que venha a morar no exterior em definitivo, sendo penalizado perpetuamente com a distância do país natal. Mesmo com outros títulos de importância muito maior que certamente serão (e já foram) conquistados. Ali, eu atingi a plena felicidade. Para a qual há retorno. Mas não há superação. E ficou a lição: para onde quer que eu vá, a parte mais importante de mim sempre estará no Alto da Glória.
Obrigado, Carlinhos Paraíba. Obrigado irmão coritibano. Jamais esquecerei o que fizeram por mim. Nunca estive tão longe de vocês. Vocês nunca estiveram tão perto de mim. Só lhes tenho uma coisa a dizer (que, como já notaram, é-me mais profundo do que qualquer soneto shakespeareano): “Perdeu Valência, recuperação do verdão...”



Coritiba x Grêmio


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